domingo

Plano de ação



Para descrever meu projeto achei por bem fazer uso de um texto maravilhoso que o apresenta muito bem. Esse texto pertence a uma menina cheia de luz, de amor, de brilho, de cores e de sabedoria. Sabe aquele tipo de gente que ver beleza em tudo ? Pode-se dizer que a beleza faz parte dela, emana pelo olhar... É uma artista !

É isso que quero provocar nas crianças, quero proporcionar um momento de lúdica brincadeira "séria", um momento para ser livre, para experimentar, para criar... Assim, pretendemos estimular e priorizar a autonomia, respeitar as múltiplas personalidades, as diferenças, aguçar o cognitivo, provocar as idéias, os erros, os acertos e as novas aprendizagens para que cada uma delas possa contruir-se diferente e/ou igual, mas única. Construir amigos, saberes, experiências, memórias e brinquedos...constrói a pessoa.

Depois do texto da minha querida amiga Lalinha segue descrição técnica do projeto UMA CASA NA ÁRVORE.

Sintam o cheiro desse texto...


RECORDAÇÕES DE OUTROS NATAIS

"Há quem diga que Natal é coisa de criança, e concordo plenamente, pois nesse período sinto despertar a criança que há em mim. A eterna criança que espera escondida atrás da porta, que algum milagre aconteça, que traz o brilho nos olhos a espera de um dia especial em que virá o presente tão desejado. Mesmo sabendo que grandes milagres são raros, que nem sempre ganhamos o presente tão esperado e que Papai Noel não existe, nem assim a criança que há em mim perde o encanto. Não estou falando da grande festa, muita comida, cantoria e presentes, falo do espírito geral da época, quando tudo parece estar mais belo, mais iluminado. Quando os planos se renovam, “Ano que vem tudo vai ser melhor!”
E quando dezembro se aproxima me lembro dos doces dias de infância. Nada era mais esperado que as férias de dezembro, pois significava passeio na casa dos avós.
Ainda trago viva na memória a imagem da minha querida avó materna, rosto fino, olhos fundos, pele que revelava a idade avançada. Sempre com sua saia e casaco de botões pequenos.
Filomena! Nome perfeito para uma avó. O Vô Luis e seu semblante sério, mas com uma imensa bondade que não era expressada em palavras, mas em gestos que até hoje me servem como exemplo.
Para mim não era um simples passeio, mas a descoberta de um universo rico em símbolos a serem decodificados. A cadeira de balanço significava dia de chuva, “todo mundo pra dentro”, o porão escuro era o medo a ser enfrentado, a calda de pudim no fundo da panela era questão de merecimento, jabuticaba no pé era aventura na certa.
Nem me recordo se havia televisão, nada melhor que aprender a montar minha própria pipa, mesmo percebendo que ela nunca voava mais alto que o telhado da casa. A rotina era acordar com o cheiro de café coado no bule, em fogão à lenha, comer bolo e queijo como todo bom mineiro. Corria para a janela para conferir se iria fazer bom tempo. Já estava até acostumada com aquelas montanhas que quem conhece não esquece jamais. Saia correndo descendo escada abaixo antes que mamãe verificasse se eu havia escovado os dentes.
Irmãos e primos, todos juntos a correr e gritar ao mesmo tempo num alarido ensurdecedor, que só era interrompido com um olhar fulminante do meu avô. Mas logo em seguida tudo recomeçava. De quem era a vez de subir no balanço de corda? A gritaria novamente. Enquanto isso era melhor ir pulando amarelinha riscada com giz no chão do quintal.
“Balança caixão, balança você, dá um tapa na bunda e vai se esconder”! O esconderijo mais disputado era embaixo da janela do banheiro, ali formava-se um amontoado de pernas, pescoços e suor. E quando éramos descobertos era uma correria só, sempre tinha um com o joelho esfolado no cimento. Que curativo que nada, era só dar uma cuspida para limpar o sangue, pois se chorasse e fizesse muita frescura mamãe mandava todo mundo entrar e ir tomar banho.
Eu não gostava das guerrinhas de mamona, tinha uma péssima mira e pouca força nos braços, sempre levava na cabeça. Bolinha de gude era bom, achava encantadora a transparência azul esverdeada.
Mamãe dizia que carrinho de rolimã era coisa de moleque, então ficava só olhando com as mãos no rosto e o cotovelo apoiado nas pernas encardidas. Mas na hora em que todo mundo resolvia descer a ladeira abaixo escorregando sentado num pedaço de papelão, eu era a primeira da fila. Voltava para casa coberta de poeira.
Fim de tarde, cheiro de dama da noite, céu pintado de uma mistura encantadora: magenta, laranja e azul cerúlio. E quando a noite vinha com toda sua magnitude, podíamos deitar no chão da varanda para contar estrelas, mas sem apontar o dedo pois diziam que dava verruga. Antes de ir pra cama ficava sondando as "conversas de adulto" em volta do fogão à lenha, que sempre tinha uma brasa acesa pra esquentar o papo. O assunto que mais me instigava eram as histórias de assombração, e ficava horas ouvindo sobre alma penada e contos do além, mesmo sabendo que ficava dias depois sem conseguir dormir sozinha.
Para dormir, nem me importva em dividir a cama de solteiro com mais dois, o sono era maior que o incômodo. E a noite tinha que ser bem dormida pois tínhamos que levantar bem cedo pra catar gravetos e capim seco pra montar o presépio e a árvore de natal, pois não tínhamos as árvores industrializados que víamos nas lojas. Mas mesmo na simplicidade era um momento muito esperado, pois acontecia uma só vez a cada ano!
Pena que era sempre período chuvoso, mas dávamos um jeito de buscar os apetrechos para deixar o natal bem bonito. Buscávamos galhos de árvores e retirávamos as folhas. Bem no canto da sala Vó Mena colocava um vaso com terra para que fincássemos ali a galho seco.
Lá vinha então minha querida tia com uma grande caixa de papelão:
- Vamos começar pela árvore! - dizia animada.
Parecia um baú dos contos de fadas, tudo brilhava. Dourados, prateados, bolas grandes e pequenas. Adorava brincar com as bolas de brilho espelhado, dava pra ver o rosto com o nariz enorme e a cabeça pequena. Não era raro quando as deixávamos cair e quebravam em pequenos cacos. Pedíamos perdão, e o sorriso da Tia Licá já dizia que poderíamos continuar, desde que tivéssemos mais cuidado. E de galho em galho a árvore ia ficando grande! Não sei bem se a árvore era realmente grande ou se eu é que era muito pequena. Conseguia colocar os enfeites somente até onde alcançava minha altura. A estrela do topo, nem pensar, “coisa de gente grande”. Algodão para imitar flocos de neve.
Podíamos ouvir de longe o assovio que Vô Luis sempre costumava fazer quando estava contente, dessa vez o repertório estava recheado de “jingle bells”, “noite feliz”. Lá vinha ele cantarolando e trazendo um saco cheio de capim não tão seco e pequenos gravetos para que pudéssemos fazer a manjedoura do menino Jesus. Burrinhos, ovelhas, anjinhos, tudo tão delicado. Ficava emocionada ao ver os olhinhos pintados com minúcia. Maria e José ficavam ajoelhados ao lado de um lugar reservado que só seria preenchido na noite de Natal, quando então poderíamos ver o pequeno bebê enrolado em panos brancos.
Já podíamos sentir cheiro de bolo de frutas, cheiro de biscoito de nata, cheiro de carne assada, cheiro de um ritual que se repetia a cada fim de ano.
Eu ficava ansiosa pra saber o que ganharia de presente, nunca sabia se papai Noel traria ou não o que eu havia pedido na cartinha cheia de desenhos. Eu sempre pedia mais do que realmente ganhava.
Mamãe ficava mais bonita e sorridente. Vez ou outra acrescentava mais uma cartão de Natal aos que ficavam aos pés da árvore. Quando eu ficava cansada de tanto correr e pular ia prá lá, me sentava quietinha para ver os cartões, cada um mais lindo que outro. Gostava das paisagens cheias de neve, com casinhas enfeitadas de guirlandas e luzes coloridas. Eu só não entendia porque fazia frio nos natais dos cartões.

Adorava também ir ao salão de manicure da Tia Fatinha, o cheiro de esmalte e acetona excitavam as clientes que sempre falavam aos quatro ventos sobre suas aventuras amorosas, eu ficava fingindo ler as revistas de novelas mas com os ouvidos nas fofocas. Nem pensava em colocar as mãos em alicates e lixas, pois isso não era brinquedo de criança.

Tia Marise ficava às voltas com as toucas de cabelo, nunca vi ninguém sofrer tanto pra esticar o cabelo. Mas no fim tudo dava certo, isso é, se não tomasse chuva, né!

Tia Mirtes ficava na janela, seu passa tempo preferido.

Tio Didi e Tio Magno chegavam pra animar o pedaço, sempre tinham uma piada nova. Tio Cinho, com seu semblante sério, mas sempre com a preocupação se tudo estava em ordem. Tio Márcio, sempre ocupado.

E assim, dia a dia o mês de dezembro ia acontecendo, sempre ao som dos lançamentos de Roberto Carlos.
As portas sempre abertas, janelas sem cadeados, luzes acesas, tudo para esperar aos queridos que ainda estavam por chegar.
Papai sempre vinha na véspera, pois ficava trabalhando e cuidando da nossa casa. Seus cabelos já estavam levemente grisalhos. Chegava com os braços abertos e nos pegava no colo.
Aos poucos iam chegando os tios e tias, primos e primas, cada um com suas notícias, com suas alegrias e tristezas.
Meu avô exibia com orgulho a fartura de tudo que tinha cultivado e criado com suas próprias mãos. Mesa farta, família unida, mesmo tendo o vazio de sempre ter alguém faltando. Assim todas as mágoas eram esquecidas, nos abraçávamos e entre sorrisos e lágrimas selávamos juramentos de união e felicidade eterna.
Feliz Natal! Feliz Ano Novo! Feliz tudo para sempre!
É isso que nos move, a esperança de dias melhores. Sobre esses alicerces firmemente fundados que construo minha vida.
Hoje em meus natais ainda trago a alegria de poder celebrar o amor, a amizade, o companheirismo, mesmo na ausência daqueles que sempre foram importantes e que hoje tenho somente lembranças.
Que bom poder olhar pra trás e vislumbrar uma longa caminhada repleta de altos e baixos, com dificuldades e conquistas, com sorrisos e lágrimas. E assim vou seguindo com a minha pequena criança interior, que de vez em quando, esperneia e chora, merecendo um puxão de orelha. Nos momentos de dificuldade peço a Deus que a proteja e a guie por esse mundo onde muitas pessoas perderam a espontaneidade infantil, a simplicidade de viver, onde muitos são cruéis e passam por cima de valores que parecem desnecessários.
A cada vez que enfrento uma tormenta em meio a uma noite escura, quando, amedrontada, penso que nunca vai amanhecer, a pequena criança recorda dos “velhos natais”, das antigas canções, dos abraços e dos ensinamentos dos pais, ensinamentos que sempre nos guiarão em direção aos nossos objetivos sem medo.
Que possamos ter mais espírito de natal no coração que possamos escrever cartinhas sem receio de escolher os presentes para alma, mesmo na dúvida de recebê-los ou não. Que não tenhamos vergonha de cantar bem alto “Noite Feliz”, que possamos retomar o hábito de enviar cartões, de abrir as portas e janelas para receber os amigos e que as luzes se acendam na nossa alma a espera do nascimento de Jesus, este que já tem um lugar especialmente reservado no nosso coração.
Que possamos lembrar dos amigos que estão distantes e esquecer do saldo bancário.
Que possamos não ter sentimento de culpa por ainda não termos feito o suficiente pelo próximo, mas que também possamos fazer mais pelo outro do que simplesmente desejar.
Que sejamos protagonistas de um ano novo e melhor, que promessas e planejamentos não fiquem somente escritas na primeira página da agenda do ano seguinte.
Que possamos não viver de saudosismos e nem ficar sem dormir preocupados com os dias que virão, mas que no presente tenhamos consciência da importância do passado e futuro na justa medida.
Que possamos ouvir aquela música que gostamos mesmo correndo o risco de sermos bregas.
Que possamos entender os mais velhos assim como queremos ser compreendidos pelos mais novos.
Que possamos ter muitos natais e que eles sejam repletos de símbolos para podermos decodificá-los, pois essa é a nossa missão, crescer e entender que ainda temos muito a aprender".

Hyali Barros


Descrição Técnica da CASA:

Terá lugar no interior da Bahia;

Momentos para brincadeira orientada por meio da construção de brinquedos;

Espaço para 200 crianças/trimestre;

Frequência por turno de segunda a sábado;

Horário dos turnos: 8:00 às 11:00 hrs e das 14:00 às 17:00 hrs ( turno oposto ao da escola );

Alimentação: Duas refeições por turno;

Material oferecido: Didático, suporte para alimentação, higiene e vestuário.

Responsável
Lara Queiroz - lara.qr@hotmail.com
Designer-educadora
Formação: Ebad / UEFS / Universidade do Minho.Pt

Equipe Colaboradora:

Psicologa: Rafaela Amorim
Engenheira de Alimentos: Georgia da Silva Moura
Artesão e Músico: Daniel Pedro Queiroz Nascimento
Designer e Segurança do trabalho: Yuri Queiroz Ribeiro
Artista Plástica: Hyali Barros



VAMOS BRINCAR ?